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Entrevista | Cónego Francisco Crespo uma Vida Dedicada ao Serviço, com Fé e Devo

COM 83 ANOS E UM PERCURSO CONSAGRADO A AJUDAR
OS NECESSITADOS, É UM HOMEM AFÁVEL E SENSÍVEL
ÀS DIFICULDADES DO OUTRO. O LEMA QUE ESCOLHEU
NO DIA DA SUA ORDENAÇÃO FOI “POR AMOR” E ESSA
TEM SIDO A MÁXIMA DA SUA VIDA EM CINQUENTA E
OITO ANOS DE SACERDÓCIO, ASSIM COMO DA SUA OBRA
SOCIAL, FEITA COM VERDADEIRA CARIDADE.

Nascido a 14 de novembro de 1940 no coração da aldeia de Cardosos, freguesia de Arrabal, no concelho de Leiria, e filho de agricultores, Francisco Pereira Crespo foi o mais novo de treze irmãos. Na altura, o país sofria os efeitos da segunda guerra mundial e a escassez de bens afetava as condições de vida no país. Tendo perdido a sua mãe muito cedo, aos oito anos de idade, por motivos de doença cardíaca e tuberculose – “Naquela altura não havia condições para tratamentos, talvez por cansaço, talvez por ter tantos filhos” – Francisco foi criado e educado pelo pai, uma pessoa muito religiosa e zelosa das práticas cristãs. Ele ia à missa todos os domingos, rezava o terço, e a família orava todos os dias, de manhã muito cedo e à noite antes de ir dormir.

Francisco fez a escola normal, o primeiro ciclo, e depois, olhando para o prior da sua aldeia, achou que aquele podia ser o seu caminho. “Eu, desde pequeno, comecei a olhar para o meu pároco e pensei que gostava também de ir para ali”. Finalizada a quarta classe, tinha várias opções de escolha: ir para o Seminário Diocesano de Leiria, para a Ordem dos Franciscanos ou ir para o Seminário da Consolata de Fátima. Não sabendo o que escolher, “fui para onde me mandaram”.

Aos onze anos, Francisco entrou então para a Consolata. Foi levado de burro pelo seu pai e por uma das suas irmãs até Fátima e ali esteve a estudar até completar o sétimo ano. No início, as saudades apertavam e até marejavam os olhos, mas com o apoio e o sacrifício da sua família, conseguiu prosseguir. “Ali fiz, desenvolvi, cresci. Até demais”. Francisco recorda um ano em que cresceu tanto e ficou tão alto “que tive de ir para casa por causa das gemadas de ovos, senão não aguentava passar o ano”. Mas manteve o seu aproveitamento e tendo duas irmãs mais velhas que tinham entrado no Convento das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, o seu pai estava muito realizado por, entre os treze filhos, ter três ‘entregues ao Senhor’.

Concluído o sétimo ano, em 1959, foi enviado para o Noviciado, em Itália, a fim de fazer a Profissão religiosa. “É um ano em que nós nos preparamos para depois fazer os votos religiosos”. Esta segunda separação da família, aos dezoito anos, foi igualmente difícil e Francisco teve de recorrer as todas as suas forças para lidar com o que viveu em Certosa di Pesio, na província de Cuneo, a 1500 metros de altitude. Aqui esteve mais de oito meses debaixo de neve. “Saudades de Portugal!”, recorda ele, lembrando que tinha de tirar a neve de cima do telhado e que, de vez em quando, nos passeios pela montanha, escorregava e “dava assim uns tombos no chão”. Foi um ano onde não havia estudos, mas havia oração, reflexão, meditação e onde as pessoas pensavam seriamente se seguir a profissão religiosa era verdadeiramente a vontade de Deus. “Alguns aguentam, outros vêm-se embora”. Francisco confessa que teve muitas vezes vontade de desistir, mas depois havia sempre alguma conversa amistosa que o fazia perseverar.

Findo o ano do noviciado, chegou o momento de rumar à cidade onde nasceu o Instituto da Consolata e onde se situava o Seminário Maior de Turim. Ali encontravam-se todos os seminaristas e o plano de estudos incluía dois anos de Filosofia, mais quatro de Teologia, ao todo seis anos de estudo. “Estávamos todos juntos. Éramos cento e tal, quase duzentos seminaristas, todos vestidos de batina”. Francisco recorda com alegria que juntos, ali estudavam, rezavam, faziam brincadeiras e jogavam. Às quintas-feiras iam todos para fora de bicicleta, cerca de quinze quilómetros até à cidade para “comer pasta asciutta” e jogar à bola. A estadia em Turim durou sete enriquecedores anos e a ordenação sacerdotal ocorreu ainda antes de terminar a licenciatura, durante o último ano de Teologia, a 18 de dezembro de 1965. “Fomos ordenados trinta e seis padres nesse dia”.

Chegou finalmente o tão esperado momento de regressar a Portugal. A viagem foi feita de barco e no dia 20 de julho de 1966 foi o grande dia na freguesia de Arrabal, onde foi celebrada a Missa Nova pelo agora Padre Crespo, na terra que o viu nascer. Depois de matar as saudades de casa e da família, estava na hora de rumar ao destino decidido para realizar a sua primeira atividade. Foi no Seminário Menor de Ermesinde em que se tornou Prefeito e onde tinha a incumbência de tomar conta de trinta a quarenta rapazes, futuros continuadores da obra do instituto. No entanto, passados quinze dias, recebeu a ordem de que tinha de voltar para Fátima, onde estava, na altura, a iniciar-se a construção do Hotel Pax. “Durante quatro anos construo o Hotel Pax”, onde fazia de tudo, incansavelmente, desde construção, reconstrução, administração, o que fosse necessário.

O hotel tinha de ser terminado até 1967, data marcada para a vinda do Papa Paulo VI a Fátima, a fim de acolher o maior número possível de peregrinos. Foram muitos dias de preparação para receber gente de toda a parte. “Durante três ou quatro dias eu não fui para a cama”. O Pe. Crespo tinha de correr para todo o lado de forma a poder atender a todos, com pouco ou quase nenhum tempo, nem sequer para comer. Pensando no aforismo que diz que ‘Deus escreve direito por linhas tortas’, o que é facto é que estes quatro anos de trabalho material foram importantes para a sua vida futura de ação pastoral, que nunca mais teve fim.

Apesar da dedicação ao hotel Pax, inesperadamente, quatro anos depois, em 1970 e por ordens superiores, foi mandado para Lisboa a fim de tirar um curso de Contabilidade. Pe. Crespo confessa que lhe custou muito depois de tanto trabalho para construir e manter o Hotel Pax, mas obedeceu e rumou à capital. “Nunca tinha vindo a Lisboa, praticamente não conhecia nada”. Veio ocupar o lugar de coadjutor da paróquia de Santo António de Campolide onde, a par com o curso que continuava a tirar, ainda tomava conta de um grupo de rapazes. Voltou a começar tudo do zero. Um ano mais tarde, substituía o pároco anterior e tornava- se o Pároco de Campolide.

Olhando para a igreja de Campolide, pensou seriamente no que iria fazer. “Foi aí que eu comecei a ver que, em Campolide, as pessoas, por a igreja estar deslocada, havia pouca gente que lá ia”. É então que lança o repto a Denise Bernard, que ainda hoje é viva e que foi a fundadora de O Ninho, que fosse tocar órgão à igreja. Através disso, o Pe. Crespo reparou na Quinta da Bela Flor completamente abandonada e pensou que “tinha de fazer alguma coisa para atender aquelas pessoas”. Foi então que os dois, mais tarde com o apoio de um grupo maior, se organizaram e montaram um pré-fabricado na Quinta da Bela Flor, com a ajuda da C. M. de Lisboa, e onde a missa era celebrada todos os domingos e se dava também a catequese. Depois regressava “para cima” e celebrava a missa na igreja de Campolide. Esse pré-fabricado reuniu as pessoas de tal forma que se formou uma cooperativa para as mesmas começarem a ter condições para terem uma casa. Entretanto, também foi montada uma pequena creche.

Não obstante, poucos anos depois, cerca de 1973, era necessário encontrar respostas para o sustento da casa do Cacém, que recebia seminaristas que frequentavam a Católica. Os seus superiores mandaram- no deixar Campolide e, no novo destino, teve de construir tudo para providenciar autonomia à casa. “Montar uma pocilga, montar galinhas, frangos, porcos, vacas, pintos, ovos, depois as couves, o tomate…”. Nas ruas, nas casas religiosas e nos supermercados era conhecido como o padre das galinhas, onde vendia parte dos produtos gerados pela quinta. O Pe. Crespo dividia-se entre vários afazeres, durante a semana e aos fins de semana, confiando que a providência divina não abandona quem muito se esforça. Nesse mesmo ano, para além de ainda continuar a prestar assistência religiosa ao Bairro da Quinta da Bela Flor, começou também a celebrar a Eucaristia na Paróquia de S. Vicente de Paulo, na Serafina, onde o anterior padre abandonou o cargo após insultos e maus tratos por parte da população.

Não obstante, poucos anos depois, cerca de 1973, era necessário encontrar respostas para o sustento da casa do Cacém, que recebia seminaristas que frequentavam a Católica. Os seus superiores mandaram- no deixar Campolide e, no novo destino, teve de construir tudo para providenciar autonomia à casa. “Montar uma pocilga, montar galinhas, frangos, porcos, vacas, pintos, ovos, depois as couves, o tomate…”. Nas ruas, nas casas religiosas e nos supermercados era conhecido como o padre das galinhas, onde vendia parte dos produtos gerados pela quinta. O Pe. Crespo dividia-se entre vários afazeres, durante a semana e aos fins de semana, confiando que a providência divina não abandona quem muito se esforça. Nesse mesmo ano, para além de ainda continuar a prestar assistência religiosa ao Bairro da Quinta da Bela Flor, começou também a celebrar a Eucaristia na Paróquia de S. Vicente de Paulo, na Serafina, onde o anterior padre abandonou o cargo após insultos e maus tratos por parte da população.

Em 1974 assumiu a responsabilidade de Ecónomo Provincial do Instituto da Consolata, continuando a celebrar missa na Bela-Flor e em S. Vicente de Paulo. “Eu tinha de tomar conta das contas do hotel, do Seminário de Fátima, do Seminário de Ermesinde, do Seminário do Cacém, do Seminário de Abrantes…”. E era ainda membro do Conselho Provincial da Consolata.

Em 1977, S. Vicente de Paulo continuava sem pároco. Tinha apenas a missa dominical celebrada pelo Pe. Crespo depois de vir de Sete Moinhos e uma outra durante a semana por outro padre que vinha de outra paróquia. “Isto estava tudo degradado”. Havia edifícios deteriorados, outros ocupados, e era necessário fazer um novo arranque. Ao olhar para aquilo, o Pe. Crespo sentiu o desejo de transformar aquela realidade e fazer renascer o serviço paroquial. Propôs-se, assim, a dirigir a paróquia da Serafina e do Bairro da Liberdade. A primeira coisa que era preciso fazer era devolver as instalações à paróquia, de forma a que a mesma pudesse começar a funcionar novamente e promovesse e ajudasse as pessoas a terem melhores condições de vida. Começou pelos idosos, a quem deu reposta através de um centro de dia construído num pavilhão pré-fabricado, com a ajuda da Cáritas. “Sessenta pessoas ali todos os dias e depois com apoio domiciliário”. Faziam também atividades e passeios. E Pe. Crespo revela, em tom de brincadeira, que “quem tem um bichinho, depois a coisa começa a puxar a outra”. Decidiu então abrir um jardim de infância com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, onde recebiam cerca de cem crianças.

Depois veio a criação de um atelier de tempos livres para as crianças que estavam na escola. Mais tarde, nasceram as atividades com grupos de jovens, incluindo colónias de férias e fins de semana. “Na Praia das Maçãs encontrámos um senhor que nos emprestava a casa”. Ficava ainda a faltar uma resposta mais completa aos idosos e surgiu então a decisão de construir um lar para idosos dependentes. Com o auxílio, novamente, de Denise Bernard, que tinha vários conhecimentos, conseguiu financiamento para criar o lar onde podia dar resposta, no primeiro piso, a mais de quarenta idosos, com mais uma outra condição. “É que havia deficientes que andavam na rua a serem maltratados pela população e isso eu não conseguia suportar”. Pe. Crespo fez então mais um acordo para receber cerca de trinta deficientes adultos.

No entanto, apesar de tão grande obra feita, sentia que faltava ainda uma valência: a creche. No lar foi adaptada uma zona onde eram recebidas cerca de cinquenta crianças até aos três anos de idade e as restantes, do pré-escolar, dividiam-se em duas salas para cada ano. Com o passar do tempo, o pedido para acolher mais idosos era cada vez maior e o Pe. Crespo afligia-se por não ter como dar resposta. Decidiu-se então a construir um segundo andar no lar, com capacidade para receber mais cinquenta idosos. Em 1984, chegou o momento de tomar uma decisão. Tendo surgi-do a hipótese de ser nomeado Superior Provincial na Congregação da Consolata, isso significava abandonar a sua obra a meio. Pe. Crespo encheu-se de coragem, foi falar com o Sr. Patriarca D. António Ribeiro e decidiu renunciar ao cargo que lhe ofereciam e continuar na paróquia com o seu projeto, sendo incardinado no clero diocesano do Patriarcado de Lisboa. Desta forma, dedicou-se a terminar a obra de expansão do lar e, de seguida, aplicou-se na última coisa que faltava, a construção do edifício da igreja, que faz agora vinte anos que foi inaugurado. Nas palavras singelas de Pe. Crespo: “Eu, quando cheguei, disse que primeiro tinha de dar resposta àquilo em que acredito, que é o Cristo vivo na pessoa do pobre, da criança, do deficiente, do idoso. Vou-lhes dar condições para eles poderem viver. Só depois é que construo a igreja”.

Se foi fácil? O Pe. Crespo responde que não. “Foi uma vida dura, mas ao mesmo tempo sempre com uma perspetiva boa de poder apresentar uma instituição com cuidado e com o melhor que eu podia fazer”, dando melhores condições às pessoas e influenciando positivamente as suas famílias. Fica ainda, no entanto, a sensação de obra incompleta pela dificuldade em chegar à população toxicodependente, o que ainda o preocupa. Hoje, o Centro Social de São Vicente de Paulo é uma obra notável que emprega muitas pessoas e que dá resposta social a crianças, jovens, idosos, deficientes e famílias carenciadas. Tem também o equipamento social ‘Canto do Francisco – Fundação Júlia’, na vila da Lourinhã, onde proporciona aos jovens dos bairros da Serafina e da Liberdade um espaço de encontro, reflexão e retiro espiritual, assim como campos de férias para jovens das classes mais desfavorecidas.

Em 2003, o Pe. Crespo foi nomeado Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa pelo Cardeal Patriarca Dom José Policarpo e em 2009 tornou-se Diretor do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa. Em 2019, com 79 anos, foi novamente nomeado pároco da Paróquia de Santo António de Campolide, que acumulou com a paróquia da Serafina. A visita do Sumo Pontífice, o Papa Francisco, a propósito da Jornada Mundial da Juventude, foi um ponto alto de reconhecimento da notável jornada do Pe. Crespo. Honrado e profundamente agradecido pela homenagem que o Papa lhe fez, o cónego e a sua equipa empenharam-se incansavelmente para que cada detalhe desse momento fosse verdadeiramente memorável. O gesto encheu o Pe. Crespo de alegria e animou-o “a fazer sempre mais e melhor por aqueles que precisam de apoio e do amor de Cristo”.

No entanto, com 83 anos, o Pe. Crespo fala com uma alguma preocupação sobre o futuro do centro. “Não sei se há alguém que tenha coragem de pegar nisto assim como eu peguei”. É um trabalho contínuo e difícil que exige dedicação. A obra do centro social é praticamente como uma “filha”, tem muito da sua vida, do seu temperamento e do seu trabalho. “O Senhor é que sabe o que vai ser o futuro”, mas é o seu profundo desejo que a obra continue e que haja quem lhe pegue e não a deixe cair quando chegar a hora de se afastar.

Segundo as palavras de Miguel Belo Marques: “O Padre Crespo é uma figura incontornável da freguesia e é impossível não falar dele quando falamos de Campolide e da sua história. O trabalho transformador que este homem extraordinário tem feito nas últimas décadas, muitas vezes até substituindo aquilo que são as responsabilidades das entidades públicas, é absolutamente assinalável e todos temos de lhe estar muito gratos. Em Campolide e, em particular, no Bairro da Serafina, há um antes do Padre Crespo e um depois do Padre Crespo”.

Em jeito de conclusão, o Pe. Crespo dirige aos jovens palavras semelhantes à do Papa: “Ele projetou- os nesta perspetiva de esperança, de serem homens de esperança, não obstante todas as dificuldades e problema do mundo de hoje”. Apela- lhes também para que escolham, como futuro, a área social que é, secalhar, aquela que está a necessitar cada vez mais. “Aqui o nosso Portugal está necessitado”. Há carência nas profissões ligadas a esta área e isso terá sérios impactos no futuro. Quem o sentir que o escolha, tal como ele, “Por Amor”. NC

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