RAÍZES EM CAMPOLIDE: RETRATOS, MEMÓRIAS E REFLEXÕES

Fotos: Mariana Branco | Texto: Diana Correia Cardoso

Nesta edição comemorativa do número 100 do boletim Notícias de Campolide, fazemos uma viagem ao passado e analisamos o presente, que nos dá pistas para o que aí vem. Campolide é um lugar de vários lugares. E cada lugar conta uma história diferente, por diferentes vozes. Neste artigo estão reunidas algumas dessas histórias. Memórias que, sendo únicas, se cruzam entre gerações e nos permitem compreender a riqueza da nossa Freguesia.

A HISTÓRIA DO CARROCEIRO E DA AMASSADORA DO BARRO”

– JANUÁRIO COSTA – 

Da sua geração já poucos restam. Figura conhecida da Freguesia, o Sr. Januário faz as delícias dos mais novos interessados pela história do local onde moram. Com quase 90 décadas de vida continua a dedicar-se como sempre o fez, a Campolide. Podemos encontrá-lo às terças e quintas-feiras de manhã na Associação de Reformados e Pensionistas de Campolide, fundada por si em 2000. Em tempos, viu nascer a Junta de Freguesia, movendo meios para resolver os problemas que encontrava. Já depois do 25 de Abril foi vogal do executivo e, anos mais tarde, membro da Assembleia de Freguesia, função da qual se desvinculou há um ano.
Mal saiu da maternidade foi morar para a Vila Motta, na Rua Soares dos Reis, onde cresceu. Quando casou, mudou de casa, para o número 4 da mesma rua. O tempo passou, várias oportunidades surgiram, mas lá permaneceu. O seu avô materno foi carroceiro do dono da Olaria localizada na Rua Soares dos Reis. Foi lá que conheceu a sua avó, “uma mulheraça” descarregadora de sal em Buarcos, que veio trabalhar para a Olaria como amassadora de barro aos 18 anos. Tiveram 7 filhos e foi nessa mesma rua que viveram. O seu pai, filho de um pastor de Seia, vendeu todas as suas ovelhas e veio trabalhar para a construção do túnel do Rossio. Da mãe, relembra os chocolates que “choviam” do primeiro andar da fábrica Colonial para o pátio da Vila Motta, um privilégio.
Januário é do tempo em que não existia o bairro da Calçada dos Mestres e o caminho até à Estação de Campolide era linear. A si não lhe escapa uma história sobre Campolide. Sobre as várias teorias que existem sobre o nome do Bairro da Liberdade, a que defende é que assim se chamava porque se dizia aos operários do Aqueduto que procuravam um sítio para morar, “aquilo é livre, podes fazer casa onde quiseres”. Em tempos chegou a fazer visitas guiadas, ensinando sobre o património da Freguesia aos moradores. Lembra-se de ver Joaquim Letria por Campolide, da leitaria por baixo da sua casa. Lembra-se de Adriano Moreira e de seu pai, que era polícia, contando como a sua traquinice de menino o levou para a Esquadra 111 da Rua de Campolide. As grandes mudanças ocorreram pelas construções de ruas, largos e pela Praça de Campolide. Um dos seus desejos era ver os fregueses mais unidos e dedicados, como um todo, à Freguesia.

UMA FREGUESIA EM TRANSFORMAÇÃO

– ELVIRA NEREU – 

Os moradores fazem os lugares, como sinal disso verificamos que Campolide está em constante mudança. Em 1970, os primeiros passos do que hoje é a Companhia de Teatro de Almada, foram dados na casa de Elvira Nereu, no rés do chão do número 59 da Calçada dos Mestres. Só depois foi oficializado nas instalações do Campolide Atlético Clube. Muitas peças marcaram aquele teatro e a Freguesia, principalmente durante a ditadura. Depois dos ensaios, era na Velha Goa, perto da coletividade, que se repunham as energias.

Por esta altura, os cafés e pastelarias fechavam por volta da meia-noite. Eram pontos de encontro e convívio. Um desses casos era a Tentadora, também localizada na Rua Marquês da Fronteira. Lá se faziam grandes tertúlias entre estudantes universitários e jovens intelectuais interessados pelo mundo. Depois da criação do grupo de teatro, essa pastelaria deu lugar a um banco. As reuniões passaram a ser feitas na Pastorinha, onde se reunia essencialmente uma faixa etária mais adulta, “uma burguesia urbana”, conta Nereu.

Aos 82 anos, é com clareza que Elvira Nereu se recorda desses tempos. Tempos conturbados, de luta pela democracia junto da população de Campolide. O ano de 1962 marcou a sua chegada à Freguesia, mais propriamente, à rua Vítor Bastos, número 62. A sua primeira casa, de onde “tinha vista de tudo. Os caminhos de ferro, a Serra de Sintra, Benfica…”. A vista era fabulosa, mas ressaltava à vista um imenso bairro de lata. Gente trabalhadora e bastante pobre habitava essas barracas no Tarujo, na Serafina, na Liberdade e na zona da Bela Flor. Cenário que contrastava com os herdeiros das classes muito elevadas, de ligação à nobreza que detinham palacetes e casas senhoriais.

Sempre de olhos postos no presente e no futuro, Elvira não deixa de refletir sobre o que foi e o que será o sítio que tão bem conhece. “Atualmente a nível sociológico, Campolide está a alterar-se muito rapidamente. Há muita gente interessante dos países de leste. Nos bairros sociais, algumas casas estão a ser compradas e remodeladas. Tem um pouco de terra anexa, que capta a atenção de muitos ingleses e franceses”. A Nova Campolide é, para si, outro dos grandes marcos de evolução.

“SARÉU” DO PÁTIO 54

– MARIA DO CÉU TOMÁS – 

Pelas contas de Céu Tomás, o Pátio 54, onde nasceu, foi mandado abaixo há cerca de 35 anos. Localizava-se na zona da Cascalheira, ao pé do Viaduto Duarte Pacheco, perto das bombas de gasolina. Hoje, com 58 anos, faz uma viagem ao passado. Era uma de 13 filhos. Eram conhecidos como a família dos “Tomazes”, uma das mais numerosas do bairro. O pai Tomás trabalhava na fábrica do Chico do Trapo, que ficava ao pé do que a população conhecia como “a mina”. Era lá que se produziam montes de trapos a partir de roupa para serem utilizados em oficinas e fábricas. A mãe, comprava na Ribeira de Alcântara sobras de peixe e vendia-o na Cascalheira.

Nessa altura, o dia começava cedo. Às seis da manhã os tanques comunitários de lavar a roupa eram todos ocupados por Céu, que ia lavar a roupa dos que pagavam à sua mãe por esse serviço. O seu primeiro trabalho foi cozer à mão pequenas carteiras de couro. O negócio estava estabelecido no pátio, era do tio Manuel Lopes e da tia Gravelina que davam aos mais pequenos uns tostões, que em conjunto serviam depois, para comprar uma estátua de Santo António. Com uma caixinha de papel iam para as bombas de gasolina pedir uma contribuição a quem lá abastecia. O dinheiro era usado para ajudar os pais, mas às vezes sobrava para um geladinho de gelo da dona Amélia ou para um chupa feito de açúcar.

“Saréu” é a sua alcunha. Foi lhe dada na escola. “Era uma maria rapaz”, conta. Com os rapazes do bairro saltava o muro que separava o seu pátio da fábrica de papelão e trapo, para ir roubar roupa. Às vezes, corria mal. Certa vez tiveram de se pendurar ao carro dos bombeiros para fugir. Mas a vida não era só traquinices. A rapaziada dedicava-se também a salvar as vidas de quem tentava o suicídio no Viaduto Duarte Pacheco.

Recorda que a vida no seu pátio era pacífica, vivia-se em comunidade, “as pessoas eram mais humanas e eram todas família”. Foi o seu irmão quem fez o portão de ferro para uma das entradas do pátio. Ao fundo havia uma gruta onde se guardavam os cavalos utilizados na zona dos Sete Moinhos. Na taberna e na mercearia pagava-se ao mês. Mas muita coisa mudou aquando da demolição. Os moradores que podiam pagar as cotas foram morar para os prédios da cooperativa da Bela Flor. A mãe de Céu foi das que não teve alternativa senão ir morar para outro bairro, neste caso para a Serafina. “Sair do pátio foi o maior desgosto da sua vida”, recorda. Mas, para si, a mudança melhorou a sua vida a todos os níveis. Lembra-se do bairro do Baltazar, da zona do Santana, vários locais agora unificados na Bela Flor. Mas ficam “saudades, muitas saudades” do que fora aquela vida no pátio 54.

“UM MICROCOSMO DA CIDADE DE LISBOA”

– PEDRO LETRIA – 

Subir a Rua de Campolide e ver o enigmático edifício do Campolide Atlético Clube é uma das memórias que mais peso tem na infância de Pedro Letria. Até aos 15 anos viveu em Campolide, onde já residia o seu pai, Joaquim Letria, uma das principais figuras do jornalismo e da televisão portuguesa. Os seus avós paternos moravam na Rua de Campolide, no número 62. A rua continua semelhante ao que era. “Residencial e com muito trânsito”, mas com um “comércio que mudou muito”, constata Pedro. Onde agora é a lavandaria self service era uma loja de vestidos de noiva. Em miúdo diziam que “eram as noivas que nunca se casavam”, porque durante 10 anos aquela montra foi sempre igual. Em frente à farmácia havia uma papelaria onde ia comprar os materiais para a escola.

Ao cimo da rua era habitual verem-se jovens na varanda do Atlético, o que levava Pedro a considerá-lo como um centro importante da vida do bairro. Ouvia falar das diferentes atividades que lá se faziam, desde a ginástica ao bilhar. Mas nunca calhou em ir ao Clube. Atualmente, aos 57 anos o seu trabalho como fotógrafo fê-lo regressar a Campolide. Procurava locais da cidade de Lisboa para fotografar no âmbito do projeto Lisboa Ano Zero de Catarina Botelho e David Guéniot. Assim regressou à antiga casa dos avós e a curiosidade que tinha em relação ao CRP voltou a palpitar. “Passados estes anos, vamos ver como estará”, pensou, ao voltar a ver o edifício. Foi em 2022 que lá entrou.

O que encontrou surpreendeu-o. Principalmente pela descoberta do espaço cultural Cosmos. Um local frequentado por jovens, como na sua infância, que coabita com as atividades desportivas já realizadas à época em que vivia em Campolide. Porém agora, os jovens são de vários países e vêm atraídos pela esplêndida programação, onde encontram artistas musicais estrangeiros de referência de todas as partes do mundo, que com todas as opções oferecidas pela cidade de Lisboa, escolhem esse local para atuar.

Sinto que o prédio pode ser entendido como um microcosmo da cidade de Lisboa. Nenhum edifício consegue ser tão simbólico de todas as movimentações que os habitantes de Lisboa identificam na cidade. Falamos de mudanças demográficas, da atividade profissional e económica”. Letria aponta o Chiado como um exemplo da constatação dessas mudanças por parte dos habitantes. “Já é muito pouco dos lisboetas.” É o que acontece no clube. Representa a “contemporaneidade lisboeta pela forma do espaço cultural Cosmos e as pessoas que o frequentam e por outro lado, pelos que lá moram, que representam o movimento migrante”, isto é, “cidadãos de outros países, que precisam de um poiso para constituir uma nova vida. Mais tarde a estes cidadãos irão juntar-se as suas famílias e daqui a uns anos a sua qualidade de vida irá melhorar e partirão para outro local”. Essa dicotomia faz desse prédio com uma história bicentenária, um lugar ainda mais único, que hoje continua a frequentar.

A ALMA DE CAMPOLIDE

– MIGUEL BELO MARQUES – 

A Junta de Freguesia de Campolide conta já com 63 anos de existência. Foi há cerca de um ano que Miguel Belo Marques foi eleito, pela primeira vez, para assumir as rédeas de governação da autarquia. Este foi um marco na sua vida, tanto profissional como pessoal, pois em 38 anos de vida, Campolide foi sempre a sua casa. “A minha ligação com a Freguesia começa muito antes de eu ser nascido. Os meus avós quando se casaram vieram morar para Campolide, assim como toda a família subsequente”.

A sua infância foi vivida por aquelas ruas que tão bem conhece. Vivia na Rua Marquês da Fronteira com os avós, mesmo no coração da Freguesia. Fez a instrução primária na antiga Escola 13, onde se localiza o Palácio de Laguares, não sabendo que um dia aquele espaço ia estar sob a alçada da Junta de Freguesia e que iria ser ele a dirigir o seu destino. Prosseguiu os estudos e mais tarde acabou por cá se fixar. “As gerações que vivem em Campolide há quarenta, sessenta, setenta anos foram as pessoas com quem cresci, me cruzei toda a vida e que muito me ensinaram”.

Não era um objetivo ser presidente de junta, mas já tinha sido vogal do executivo no mandato de 2009-2013 com o cargo de secretário. Essa experiência deixou-lhe um “bichinho”, o bichinho da “proximidade” aos moradores. “É mais fácil para as pessoas contactar connosco e nós com elas, do que uma câmara municipal ou governo, por uma questão de escala.” É possível sentir que “tomamos pequenas decisões que têm um impacto direto nas suas vidas”. Relembra que quando foi convidado para ser presidente se sentiu honrado por lhe darem a oportunidade de servir a sua comunidade, melhorando um espaço que lhe é tão querido e estando presente no dia-a-dia dos seus Vizinhos. Porque, para se ser autarca é essencial “que se conheça o território geograficamente, mas também demograficamente. As ruas, os jardins, os sítios, as pessoas e a alma da freguesia. Só assim se pode tomar as decisões corretas para a Freguesia”.

A alma de Campolide é “uma mistura de muitas almas, fruto de uma série de culturas, religiões, experiências e vivências. É Campolide dos pátios, de pessoas que vieram para cá novas e tiveram cá os seus filhos e netos. O bairro da Liberdade, da Serafina, que tem orgulho das suas raízes. É a Universidade Nova, a Nova de Campolide, as Twin Towers”. Numa só palavra: “heterogeneidade”. Um organismo em constante mudança. Mudança inevitável implicada no evoluir dos tempos. Recorda a existência de um comércio local mais forte, na época da sua infância, e hoje a existência de espaços verdes e jardins muito mais bem cuidados.

 

Januário Costa

Januário Costa

Elvira Nereu

Maria do Céu Tomás
SARÉU

Pedro Letria

Miguel Belo Marques
Presidente da Junta de Freguesia de Campolide

Lavagem de roupa na ribeira de Alcântara, na zona da Quinta da Rabicha, anos 40 © Arquivo Municipal de Lisboa | PAS015218

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