Campolide,

A LOJA ONDE VOU - Barbearia do Mário

Uma vida na cabeça dos outros

A pacatez do local não deixa adivinhar a incrível afluência de outros tempos. "No ano em que abrimos, na véspera de Natal, comecei a trabalhar às oito da manhã. Eu e o empregado que cá estava só fomos para casa às três da madrugada", conta-nos, visivelmente divertido o simpático Mário Ferreira, que abriu as portas desta barbearia no dia 3 de Abril de 1967.


O espaço nunca teve nome, nas redondezas, todos dizem simplesmente que vão "à barbearia do Mário". E basta. O facto é que, nos tempos áureos desta casa "ao Sábado, estava a cortar cabelos e barbas até quase à meia-noite. Os clientes vinham em grupos de 10 ou 12 e esperavam a sua vez, enquanto conversavam. A casa ficava cheia…”, recorda com satisfação.
Mário de Oliveira Ferreira completou 84 anos em Janeiro, e sempre foi uma figura de Campolide. Nascido na Cascalheira, na Rua dos Sete Moinhos, sempre foi este o seu universo. Viúvo recente, projecta o olhar do futuro nos dois filhos, um ligado à construção civil, o outro, professor de Matemática.


A vida foi-lhe dando lições rígidas; aprendeu o ofício num albergue porque "não tinha pai, nem mãe", como desabafa. Antes, entre os 11 e os 17 anos, ensinaram-lhe os rudimentos como serralheiro civil ou polidor de móveis. Mas o ritmo da tesoura, a precisão da navalha, as longas horas em torno do topo de tantos homens, falaram sempre mais alto e foi esta a via profissional que o moldou. Antes desta casa, ainda esteve mais 14 anos noutra do mesmo ramo, o que perfaz seis décadas e meia a alindar a cabeça de muita gente. Uma vida.


Mas o Mário tem outra paixão forte: a música. Saxofonista experiente, é ele quem anima muitas das festarolas com os amigos e almoços, como no Carnaval, no Restaurante A Valenciana, como comprovam as fotografias que mostra com orgulho. 
As histórias desta barbearia são mais que muitas, como a do agente da PIDE que frequentava o estabelecimento. Mal ele entrava, fazia-se um sinal à malta para pararem certas conversas. Na parede desta velha loja, que muito já viu e ouviu, três painéis almofadados acolhem uma colecção magnífica de pins. PS, PPD, PCP, CDS, Povo Unido, MDP-CDE, mas também a EDP, o histórico MFA, a figura de Che Guevara e até uma pequena suástica de época remota partilham o forro no interior da moldura, uma moldura que circunda também o tempo e as memórias que se sentem por aqui.


Despedimo-nos com amizade, no final da conversa. Deus meu, que mãos macias.

É a prova de quem bem conhece os cremes e como usá-los…

Barbearia do Mário
Calçada dos Mestres, 54B


2ª a 6ª Feira – 9h00/14h00 e 16h00/19h00


Sábado – 9h00/13h00

Veja o vídeo aqui.

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