Campolide,

Retrosaria Campolide

É quase impossível entrar numa retrosaria e não viajar no tempo. Os objectos, as cores, os tecidos, tudo convida a evocar outra época e uma relação diferente com as lojas em cada bairro. “Estamos abertos desde 1964. O meu pai faleceu em 1978, a minha mãe esteve aqui até 2015, e há um ano peguei no negócio a tempo inteiro. Mas, desde muito pequeno andei cá sempre”, explica-nos Jorge Domingues, ao balcão da retrosaria de Campolide, na Rua General Taborda. Para muitos, será sempre “a retrosaria da Dª Graça”.


Há vestígios de tempos idos, como as caixas de botões com estes pequenos círculos coloridos cosidos em cartões. “Actualmente, vêm em sacos de plásticos, a granel. Antigamente, havia funcionárias apenas para os coserem nos cartões”, recorda quem sabe do seu ofício. Era o tempo em que a manhã significava uma pequena multidão, as costureiras escolhiam tafetá a metro e cada fecho éclair era separado a rigor.


Em Campolide, havia muitos alfaiates e costureiras. As pessoas faziam mais vida no bairro e encomendavam alterações na roupa. Hoje, a realidade é distinta. Os artesãos da costura quase desapareceram, as indumentárias compram-se e usam-se até a inutilidade final. Depois, mais caras ou mais baratas, compram-se novas peças. 
Mas quem procura certa qualidade, vai encontrá-la por aqui. “Certos tipos de linhas, roupa interior de qualidade... ainda esta semana uma senhora veio cá por causa das camisolas interiores com punhos... não são fáceis de encontrar...”, explica-nos, com afabilidade.

Além disso, haverá sempre quem prefira vir aqui, porque não gosta da confusão dos grandes centros comerciais, ou pela dificuldade em movimentar-se para fora da vizinhança. “Há aqui pessoas que conheço desde sempre, nasci em Campolide, há 53 anos”, partilha este antigo militar, 32 anos como fuzileiro naval. 
Capas para colchas e mantas adequadas a um frio que tarda em chegar convivem com colchetes, botões coloridos com os fechos que irão completar uma saia ou uma blusa, bolsas para transporte de fraldas dividem uma parede com peúgas para pezinhos de poucos meses, peças que testemunham como, “antigamente a loja tinha muita roupa para bebés, era uma das áreas importantes e com maior procura”.
O sol já vai fraco, é tempo de descer o toldo da entrada. Jorge recorda como a mãe dizia, carinhosamente, que ele e o irmão tinham sido criados numa prateleira da retrosaria. Dª Graça deixou netos, talvez até pensasse que os filhos de Jorge podiam um dia vir a seguir com o negócio de família. Estará nos planos deles? “Nem pensar!”, confessa-nos, quase a desmanchar-se de riso. “Tem de se estar vacinado desde pequeno”, graceja.

Veja o vídeo aqui.

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